Conceito desenvolvido na Univates propõe nova forma para identificar áreas de maior destruição em enchentes extremas

Foto: Marcio Steiner/Ilustrativa

Uma experiência construída em meio ao maior desastre hidrológico da história do Rio Grande do Sul acaba de se transformar em uma contribuição científica para o planejamento territorial brasileiro. A Univates publicou uma Nota Técnica dedicada à formalização do conceito de Zona de Arraste (ZA), categoria desenvolvida por pesquisadores da instituição para identificar, dentro das áreas inundáveis, os locais onde a força da água atinge intensidade suficiente para provocar destruição estrutural, erosão severa, remoção de edificações e risco elevado de perda de vidas.

O documento está disponível para acesso gratuitamente na plataforma de compartilhamento de documentos científicos Zenodo. A Nota é assinada por Sofia Royer Moraes, Izabele Colusso, Marcelo Arioli Heck, Jamile Weizenmann e Juliana Lombard Souza, pesquisadores associados a diferentes Instituições: além da Univates, Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Sinos) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

A publicação representa o primeiro documento científico destinado a estabilizar conceitualmente uma expressão que passou a ser utilizada durante os estudos realizados pela equipe de Planejamento Territorial da Univates após as enchentes extremas que atingiram o Vale do Taquari em setembro e novembro de 2023 e, sobretudo, durante a catástrofe de maio de 2024 e que, dessa forma, já aparece no circuito social e midiático na região.

O conceito nasceu da necessidade de compreender um fenômeno que os instrumentos convencionais de mapeamento de risco não conseguiam explicar integralmente. Em diversos municípios da região, áreas submetidas a uma mesma inundação apresentavam comportamentos completamente distintos. Enquanto algumas registravam apenas alagamentos temporários, outras eram literalmente atravessadas pela correnteza, com edificações arrancadas, margens destruídas, infraestrutura comprometida e alteração permanente da paisagem. Na região, é o que se verifica, por exemplo, na área do Passo de Estrela, entre Lajeado e Cruzeiro do Sul.

Entendendo o conceito

Foi justamente essa diferença observada em campo que motivou a equipe técnica da Univates a propor uma nova categoria de análise. Segundo a Nota Técnica, a delimitação tradicional das áreas de inundação considera predominantemente a extensão da lâmina d’água, parâmetro suficiente para identificar locais sujeitos às inundações, mas insuficiente para caracterizar os setores onde a energia hidráulica produz impactos muito superiores. Nessas situações, a intensidade dos danos depende da combinação entre a morfologia fluvial, profundidade e velocidade do fluxo da água, onde as duas últimas variáveis são reconhecidas pela literatura internacional como um dos principais indicadores de perigo em eventos hidrológicos extremos.

A partir dessa constatação, os pesquisadores desenvolveram o conceito de Zona de Arraste, definido como o subconjunto das áreas inundáveis onde a energia hidráulica alcança níveis capazes de provocar processos intensos de erosão, destruição estrutural, deslocamento de edificações, fragmentação da paisagem e elevado risco à vida humana.

Embora fundamentada em princípios físicos já conhecidos, a categoria proposta organiza essas informações em um novo parâmetro de planejamento territorial, permitindo diferenciar áreas onde é possível adotar estratégias de convivência com as inundações daquelas em que a ocupação permanente deixa de ser tecnicamente recomendável.

De onde se origina a ideia

A origem do conceito está diretamente relacionada aos trabalhos desenvolvidos pela Univates em convênio com a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano do Rio Grande do Sul (Sedur), durante a elaboração dos estudos de zoneamento para municípios atingidos pelas enchentes do Vale do Taquari. Quando analisou os danos observados em cidades como Arroio do Meio, Cruzeiro do Sul, Encantado, Estrela, Muçum, Roca Sales e Colinas, a equipe identificou padrões recorrentes que não eram plenamente representados pelos mapas tradicionais de suscetibilidade à inundação.

Em vez de considerar apenas onde a água chegava, tornou-se necessário compreender como ela se movimentava e com que intensidade atravessava determinados setores urbanos e rurais. Esse processo fez surgir uma categoria técnica inicialmente utilizada nos estudos de reconstrução e que, agora, passa a ser formalizada cientificamente.

Para consolidar a proposta, os pesquisadores realizaram uma busca sistemática em bases nacionais e internacionais de literatura científica, incluindo Google Acadêmico e OpenAlex, utilizando descritores em português, espanhol e inglês. O objetivo era verificar se já existia uma definição consolidada para a expressão “Zona de Arraste” no contexto dos estudos sobre inundações.

O levantamento revelou que o termo aparecia apenas de forma ocasional ou descritiva, sem definição conceitual, metodologia própria ou delimitação operacional. A ausência de uma literatura específica reforçou a necessidade de registrar formalmente o conceito desenvolvido na Univates, estabelecendo sua definição, seus fundamentos físicos e geomorfológicos e suas possibilidades de aplicação.

Na avaliação da equipe, a formalização é fundamental para conferir estabilidade científica ao conceito, permitindo sua utilização consistente em pesquisas futuras, estudos técnicos, políticas públicas e instrumentos de planejamento urbano.

A Nota Técnica também procura demonstrar que as Zonas de Arraste não constituem uma substituição dos atuais mapas de inundação, mas um parâmetro complementar. Enquanto as chamadas Zonas de Suscetibilidade à Inundação identificam toda a extensão potencialmente inundável, as Zonas de Arraste destacam os trechos onde a velocidade da corrente e a energia hidráulica transformam a inundação em um fenômeno de elevada capacidade destrutiva.

Diferenciação que possui implicações

A diferenciação possui implicações diretas para o planejamento territorial. Segundo o documento da Nota Técnica, áreas localizadas fora das Zonas de Arraste, embora sujeitas a inundações, podem comportar estratégias de adaptação, como elevação das edificações, utilização de materiais resistentes à imersão ou construção sobre pilotis. Já nas Zonas de Arraste, onde a força da água supera a capacidade de resistência das estruturas convencionais, a medida tecnicamente mais consistente passa a ser a desocupação permanente, acompanhada de políticas de reassentamento e reorganização urbana.

Os autores argumentam que a sucessão de grandes enchentes observada nos últimos anos no Vale do Taquari lança luz à necessidade de aperfeiçoar os instrumentos de gestão territorial, incorporando parâmetros capazes de representar não apenas a extensão das inundações, mas também sua intensidade. Nesse sentido, a Nota Técnica recomenda que o conceito seja integrado aos planos diretores municipais, aos instrumentos previstos pela Política Nacional de Proteção e Defesa Civil, aos sistemas oficiais de cartografia de risco e aos processos de revisão das estratégias de adaptação climática.

Além do reconhecimento científico, o documento destaca que a proposta já vem produzindo repercussões práticas. O conceito serviu de base para estudos conduzidos pelo Governo do Estado no âmbito do projeto RioS, que desenvolveu o mapeamento das chamadas Zonas de Arraste Expandidas em nove municípios do Vale do Taquari. Segundo a Nota Técnica, mesmo após a incorporação de novas análises, imagens de satélite e trabalhos de campo, o estudo estadual manteve elevada convergência com os limites originalmente identificados pela equipe da Univates, reforçando a consistência da metodologia desenvolvida pela universidade.

Próximos passos

Os autores ressaltam, entretanto, que a publicação representa apenas uma etapa da consolidação científica da proposta. Estudos complementares envolvendo modelagem hidrodinâmica bidimensional, calibração estatística, validação quantitativa e atualização das séries históricas deverão aprofundar os parâmetros operacionais do conceito em artigos científicos atualmente em preparação.

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