As fendas históricas existentes em áreas de Cruzeiro do Sul não apresentam o mesmo comportamento dos deslizamentos que devastaram parte do Vale do Taquari durante as enchentes de maio de 2024. A avaliação é do professor e geólogo Ruy Paulo Phillipp, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que participou do Seminário Previno Taquari-Antas, realizado na Univates.
Segundo o pesquisador, as fendas fazem parte de um processo conhecido como rastejo, caracterizado por movimentos muito lentos do terreno, que podem ser acompanhados ao longo do tempo.
“As fendas são perigosas, mas têm um movimento extremamente lento. Diferentemente dos fluxos de detritos e dos deslizamentos, que acontecem em segundos ou minutos, elas podem ser monitoradas diariamente”, explica.
Phillipp ressalta que, pelo fato de as fendas de Cruzeiro do Sul serem conhecidas há gerações, a tendência é que apresentem deslocamentos graduais, medidos em centímetros ou até milímetros ao longo dos anos. Por isso, a principal recomendação é o acompanhamento contínuo por moradores e órgãos de defesa civil. “Se a fenda mantém um comportamento estável, basta monitorar. Mas se começar a abrir de forma perceptível, é sinal de que medidas precisam ser tomadas”, afirma.
A principal responsável pela movimentação dessas estruturas é a água. Conforme o professor, períodos de chuva intensa aumentam a infiltração no solo e favorecem os deslocamentos. “O que faz a fenda se movimentar é basicamente a água. Quanto maior a infiltração, maior a tendência de movimentação do terreno”, observa.
Rochas influenciam os deslizamentos
Durante o seminário, Phillipp também apresentou resultados preliminares do projeto Previno Taquari-Antas, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs), que busca compreender os fatores que contribuíram para os movimentos de massa registrados em 2024.
O estudo analisa a influência dos diferentes tipos de rochas vulcânicas presentes na região. Segundo o pesquisador, embora a paisagem pareça homogênea, o Vale do Taquari é formado por diferentes camadas geológicas, com características distintas de resistência e desgaste.
Algumas dessas rochas se transformam em solo mais rapidamente e produzem maior volume de material solto, enquanto outras permanecem mais resistentes e formam paredões íngremes que favorecem a queda de blocos. “O tipo de rocha influencia diretamente na quantidade de material disponível para um deslizamento quando ocorrem chuvas extremas”, explica.
Chuva extrema foi fator decisivo
De acordo com Phillipp, o principal gatilho para os deslizamentos registrados em maio de 2024 foi a saturação do solo provocada pelo volume excepcional de chuva.
Quando todos os espaços vazios do solo ficam preenchidos por água, o terreno perde resistência e passa a deslizar. Em alguns casos, o material acumulado em encostas se transforma em fluxos de detritos, considerados os movimentos mais destrutivos. “Quando o solo satura de água, ele perde a coesão. A partir daí, tudo pode descer: solo, pedras, árvores e demais materiais presentes na encosta”, afirma.
Ação humana agrava riscos
O pesquisador também chama atenção para o papel das intervenções humanas na instabilidade dos terrenos. Cortes inadequados em encostas, abertura de estradas sem planejamento e a retirada da vegetação em áreas sensíveis aumentam significativamente o risco de deslizamentos.
Como alternativa, ele defende soluções tradicionais utilizadas por antigos agricultores da região, como a construção de muros de contenção com pedras locais. “Nem sempre é necessário um grande projeto de engenharia. Muitas vezes, técnicas simples e já utilizadas pelas gerações anteriores ajudam a aumentar a estabilidade das encostas”, destaca.
Phillipp também rebate a ideia de que plantações de eucalipto seriam responsáveis pelos deslizamentos. Segundo ele, o problema está mais relacionado à retirada completa da cobertura vegetal para atividades agrícolas em áreas inclinadas e à falta de preservação das matas ciliares. “Tudo está conectado. Quando se remove a vegetação das margens dos rios e das encostas, aumenta-se a erosão, o assoreamento dos cursos d’água e os riscos de novos deslizamentos”, conclui.
Fonte: Rádio Independente


